07 de Novembro de 2019 / Aprender
Pela proteção dos pequenos gigantes
Martina Panisi é bióloga, doutoranda na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e fundadora do projeto “Forest Giants - gigantes da floresta”. Este projeto ambicioso tem como objetivo promover a sensibilização, valorização e conservação da fauna e flora das ilhas de São Tomé e Príncipe, utilizando o Búzio-d’Obô como objeto de sensibilização.
 
A ilha de São Tomé está situada a 255 km da costa oeste africana, no Golfo da Guiné. A sua paisagem, originalmente dominada pela floresta tropical húmida nativa encontra-se agora muito alterada pelas intensas mudanças de uso do solo.
 
A ilha encerra em si uma fauna endémica muito rica em caracóis terrestres, incluindo o “Vulnerável” Búzio-d’Obô (Archachatina bicarinata), uma espécie com boa dispersão e abundante na ilha até meados do século XX, altura em que sofreu um acentuado declínio devido à introdução do Búzio-vermelho (Archachatina marginata).

Apesar da introdução desta espécie ser indicada como principal fator para o decréscimo populacional do Búzio-d’Obô, estudos indicam que tanto a distribuição das duas espécies na ilha de São Tomé, como os hábitos alimentares e de atividade são completamente antagónicas. Deste modo, como podemos explicar a evidente relação?
 
A resposta é simples: por desconhecimento da população.
 
A introdução do Búzio-vermelho nas ilhas de São Tomé e Príncipe foi impulsionada por uma necessidade de resolver a carência de fontes proteicas para a população local. Como não distinguem a espécie invasora da espécie endémica, os locais acabam por consumir ambas, levando ao declínio da espécie endémica, mais sensível e com uma capacidade reprodutiva mais lenta do que a espécie invasora.
 
Estudos preliminares indicam que as populações rurais das ilhas realmente dependem da espécie invasora como fonte proteica, representando 45,7% da proteína total ingerida numa comunidade. Assim, a erradicação do Búzio-vermelho não poderá constar nas medidas de conservação apresentadas tendo estas de passar por um forte processo de sensibilização das populações locais para o não consumo da espécie autóctone, o Búzio-d’Obô. . Se a população suplementar a sua alimentação com o  consumo do Búzio-vermelho, os Búzios-d’Obô terão a oportunidade de se desenvolver, invertendo a tendência de extinção. Por outro lado, haverá um apertado controlo populacional da espécie invasora impedindo desta forma que cresça descontroladamente e origine outro tipo de problemas ambientais.
 
Este caso, é um exemplo de como a conservação da natureza depende de um conjunto de medidas integradas que reconheçam a importância do envolvimento das comunidades locais na salvaguarda daquela que também é a sua “casa”.
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